sábado, 12 de fevereiro de 2011

Faíscas linguísticas de Augusto de Campos: 80 anos

Por Nicole Cristofalo

É difícil entender os significados e estruturas sintéticas e morfológicas dos poemas de August Stramm (1874-1915) mesmo em alemão, o que parece tornar distante a possibilidade de êxito ao vertê-los para o português. Porém, Augusto de Campos traduz, com sua grande sensibilidade às características particulares e criativas de cada poeta, 28 poemas desse autor, cuja obra se aproxima dos quadros expressionistas e abstratos, sendo comparado a Kandinsky e Paul Klee, e da música, refletindo Schoenberg e Anton Webern, no livro August Stramm: poemas-estalactites.


“Stramm nos joga numa areia movediça gramatical.” Esta bela imagem construída por Augusto sintetiza a obra de Stramm. “Verbos intransitivos se transitivam, perdem ou ganham prefixos; substantivos, adjetivos e advérbios assumem formas verbais. Somem-se a isso os neologismos criados por fusão, encurtamento e alongamento dos vocábulos ou por transferência de afixação, ou ainda diretamente a partir de radicais”, acrescenta. Tais apontamentos ficam claros quando se lê um poema como “Campo de batalha”:

Torrões moles afrouxam o ferro
Sangues filtram flocos de limo
Crostas migalham
Carnes lamam
Amamentar estua nos destroços.
Entrematanças
Chispam
Olhos de crianças.

Além da forte expressão justaposta “entrematanças”, o substantivo “lama” atua como verbo e intensifica o impacto da imagem do campo de batalha descrito por Stramm, onde, aliás, viria a morrer, como reservista do exército alemão, durante a Primeira Guerra Mundial, aos 41 anos. Já no poema “Caído”, a fusão entre as palavras “lágrima” e “mulheres” em “lagrimulheres” reflete a imagem do choro encarnada nas mulheres que vivenciam a guerra. Como lembra Michael Hamburguer, em A verdade da poesia, “com pouquíssimas exceções, os poetas alemães e austríacos da assim chamada escola expressionista (...) eram radicalmente contrários à guerra, mesmo que tenham servido e morrido nela”.


Em Poemas-estalactites, Augusto de Campos traduz textos de dois livros do autor alemão: Du (Tu), poemas de amor, e Tropfblut (Gotas de sangue), poemas sobre a guerra. Além de reservista, Augusto comenta que o poeta era “filho de um agente do serviço postal, funcionário dos correios como ele”, e que este fato pode ter influenciado a estrutura tão particular de seus textos: “tem-se a impressão de que Stramm compactou em sua poesia a brevidade da mensagem telegráfica”. De versos sucintos, construídos na ausência de “passagens explicativas ou narrativas”, e no uso contínuo de verbos impactantes e uma grande sensibilidade plástica, derivam poemas com imagens que vão se tornando cada vez mais precisas e concisas, formando o contorno de estalactites, como em “Guarda”:

A noite embala as pálpebras
O sono pisca e chispa
O inimigo farisca
O cachimbo
Faísca
E
Todos os espaços
Tremem
Miúdos
Mudos.


August Stramm colaborava na revista Der Sturm, uma das principais publicações daquele período, editada por Herwarth Walden. Em Poesia expressionista alemã – uma antologia, Claudia Cavalcanti assinala a importância fundamental que a Der Sturm teve para a inovação das artes gráficas. Foram seus colaboradores Marc Chagall, Paul Klee, Franz Marc e Pablo Picasso, entre outros. A relação que Stramm cria entre a poesia e a pintura em sua obra é extremamente relevante, e até mesmo antecipa a de Kurt Schwitters. Como comenta Augusto, a partir do prefácio de uma das edições francesas mais completas de tradução de Stramm, ele “cria uma obra em que a relação com a linguagem e as coisas é inteiramente reinventada. Sua obra é a quintessência do expressionismo”.


Augusto recorda, também, o importante papel de Haroldo de Campos no resgate do poeta, através do artigo “Os estenogramas líricos de August Stramm”, publicado originalmente na página “Invenção”, do Correio Paulistano (15 de maio de 1960), e republicado em O arco-íris branco (1997). Nesse artigo, que também apresenta algumas de suas transcriações, Haroldo aponta que, nos textos de Stramm, “se evidencia o uso de verbos novos, traço de aproximação com a estética futurista”, outro elemento frequentemente retomado pelos críticos. Como descreve Patrick Bridgwater, citado por Augusto: “futurista, ele foi um experimentalista mais radical do que os futuristas o foram. Seus poemas, totalmente ilógicos pelos padrões da prosa, são dinâmicos, staccato, abstratos, expressões altamente concentradas de um estado de visão interior”.


Estas características, próprias da música e da pintura, mostram a dificuldade da tradução da obra do autor alemão, principalmente, segundo Augusto, quando se procura respeitar suas criações vocabulares, além de suas “desconstruções e reconstruções morfológicas, as aliterações e paronomásias, o entre-ecoar das rimas internas que se acumulam ou dispersam em linhas curtíssimas”. Atento a cada um destes elementos, Augusto de Campos não hesita em apresentá-los nas traduções dos poemas, refletindo o desempenho original do poeta alemão, pois prefere “assumir o risco de lesa-língua ao de lesa-poesia”, praticando o que chama de “tradução-arte”.

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