segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O reino sem rei de Augusto de Campos: 80 anos

Por André Dick

O poeta Augusto de Campos, que completa hoje 80 anos, quando lançou O rei menos o reino, aos 20 anos, já tinha lido muita poesia e escutado música clássica e de vanguarda – uma de suas paixões, quase equivalente à poesia, pela dedicação, anos adiante, à descoberta de novos músicos e tendências musicais, da Tropicália, passando por João Gilberto, de sua obra Balanço da bossa, até criadores musicais do século do caos, como John Cage e Webern, em Música de invenção.


Augusto não começou concreto. Começou clássico, na obra O rei menos o reino, com sua produção de 1949 a 1951. Mas um clássico diferente, que diz:


Por isso minha voz esconde outra
Que em suas dobras desenvolve outra
Onde em forma de som perdeu-se o Canto
Que eu sei aonde mas não ouço ouvir.

Neste primeiro trabalho de Augusto, percebe-se uma tendência ao surrealismo, alimentado, provavelmente, por leituras de Murilo Mendes, que também inspirou Cabral, mas concentrando, em sua linguagem, um trabalho mais detalhado com as palavras, uma a uma, num processo cabralino. A temática, no entanto, era, sem dúvida, clássica, a julgar pelos títulos dos poemas, como “Canto do homem entre paredes”, ou “O vivo”, ou “Sois vós, serena”, ou “Poema do retorno”, sustentada, porém, numa linguagem mais trabalhada, mais concisa, planejada, dentro de um planejamento que desaguaria, anos mais tarde, no lançamento da poesia concreta.


Repleto de bons versos, este primeiro trabalho de Augusto ressoaria também no segundo, O sol por natural, reunião dos trabalhos do poeta entre 1950 e 1951, tendo a figura enigmática de Solange Sohl como tema da maioria dos poemas. A coletânea seguinte, Ad augustum per augusta, reuniria os trabalhos feitos entre 1951 e 1952, numa obsessão aberta por quadrinhas, enfocando conflitos internos (dispensados pela poesia concreta), em versos como

O meio-dia brilho.
Baralho. Maravilho.
O sono me enrodilho
Na noite como um filho.

E se ao espelho digo:
– Quem sabe onde é o rei?
– Amigo, amigo, amigo,
Ignoro e não sei.



Os sentidos sentidos, com trabalhos também de 1951 a 1952, compreende a fase em que Augusto já dava passos mais claros em direção a um concretismo. O poema “O coração final” é um exemplo disso, trabalhando com palavras-montagem (em itálico), como Joyce:

Ter penetrado o grande corpo curvo
e circular que é sinuoso corpo
grande, penetrado onde o centro
se concentra e elabora a obra mortal
da vida, maleado a reta coluna
vertebralamorosa, cingido a duplo



Ou no próprio poema que dá título à coletânea, em que Augusto escreve:

A língua: a lânguida rainha melancálida
enrolada em seu bathbreathbanho palatino,
a sempitépida, a blendalmolhada e alqueblându-las
cobras corais como cópulas de oravoz.

O poema que talvez melhor exemplifique a inevitável tendência da poesia de Augusto é “O poeta ex pulmões”, uma seleção de vocábulos clássicos com formas novas, lembrando cummings, na quebra de versos

por
um
cal
inho
no seu
meu deu
dia
s dedo

esmago um amuleto

Em 1953, viria a série Poetamenos, de poemas visuais e coloridos baseados nas notas de Webern. Complexos, os poemas dessa fase de Augusto marcam sua preocupação com as palavras que se correspondessem, em suas cores, a partituras musicais, e já estavam em sintonia com o que John Cage faria a partir da publicação de seu Silence, em 1961. Em 1955, Augusto faria Bestiário, um conjunto de poemas multifragmentados, inspirados certamente em suas leituras e traduções (já em andamento) de cummings.


Disposto a mudar a poesia brasileira, Augusto foi responsável por trazer alguns autores estrangeiros pouco ou nada conhecidos ao público brasileiro, entre os quais Ezra Pound e o próprio e. e. cummings. Colaborou, a partir daí, na redescoberta de nomes como Oswald de Andrade, Sousândrade e Pedro Kilkerry, o poeta simbolista baiano. Acompanhado de seu irmão Haroldo e de Décio Pignatari, Augusto lançou oficialmente em 7 de dezembro de 1956 a poesia concreta. A maioria dos poetas e intelectuais enxergava o concretismo, no caso específico, o literário, como um ataque à boa poesia que se fazia, aquela de Drummond e diluidores. Augusto de Campos traduziu Mallarmé, poetas russos, Dante, John Donne, Emily Dickinson, Lewis Carroll, muitos provençais, além de Rimbaud, entre outros, para ser considerado. Mas sua poesia, a sua, aquela que Ferreira Gullar se refere como “antipoesia”, continua sendo um mistério por não ser lida como outros nomes de peso.


A série de poemas concretos (aqueles aos quais muitos se referem, atualmente, como “palavra-puxa-palavra”), em maior número, no período entre 1954 e 1960, se chamaria Ovonovelo. Poemas preocupados em atender alguns preceitos da teoria da poesia concreta, mas, como as teorias antropofágicas de Oswald, até hoje pouco deglutidos entre nós. Entre os melhores desse período, estão, sem dúvida, “Tensão”, “Corsom” e “Flor da pele”, equilibrados entre o jogo de palavras e a tensão da formalidade que neles se encontram. De 1961 a 1965, Augusto compôs três poemas excelentes: “Greve” (com um espírito maiakovskiano, que recebeu uma versão computadorizada do poeta, com as palavras “greve” piscando na tela do computador), “Cidade” (um excelente cartão de visitas à aglutinação de uma cidade grande) e o antológico “Luxo” (em que a palavra lixo formava, internava, a palavra luxo). De 1964 a 1966, uma série de poemas mais semióticos do que concretos: os “Popcretos”, incluindo “Olho por olho”, “SS”, “O anti-ruído” e “Psiu!”, seguidos, em 1967, pelo poema-objeto “Linguaviagem” (nome de um livro de ensaios do autor, de 1987).


Tais poemas seriam os primeiros passos para a formação de Equivocábulos, de 1970, uma série de poemas visuais. Os melhores? “Pressauro” (alternando presente, passado e futuro) e “Rever” (antológico, com as letras finais invertidas). Nesta década, Augusto faria, talvez, os primeiros poemas semióticos, incluindo o “Viva vaia”, o poema-objeto “Fim”, de 1972, o ótimo “Tudo está dito”, de 1974, e obras como Caixa preta (com poemas que vinham dentro de uma caixa), de 1975, além da continuação dos Profilogramas (iniciados em 1966), e a introdução das “Intraduções”, com traduções de Edward Fitzgerald, William Blake (para o poema “O tygre” e para “A rosa doente”, excelentes) e Ausonius.
De 1975 a 1978, o conjunto de poemas intitulado Stelegramas, incluindo alguns dos melhores poemas de Augusto, abriria as portas para o trabalho registrado nos anos 1980, menos fragmentado, mais voltado para a sintaxe no sentido espacial, em relação com a poesia concreta. Alguns deles: “O quasar”, “O pulsar” (gravado por Caetano Veloso) e “Memos”.


Tais trabalhos com uma sintaxe mais visível surgiriam em Expoemas, reunião de poemas de Augusto, feitos entre 1980 e 1984. Entre eles, estão “Limite”, “Todos os sons” – uma homenagem de Campos a John Cage –, “Pessoa” (um / som / que / não / soa / / no ar / que / não / é / / quase / pessoa”), “Pó de cosmos”, “Viventes e vampiros”, “Afazer”, “Dizer”, “SOS”, “Inestante”, “2ª via”, “Anticéu” (com algumas palavras em braille) e “Pós-tudo”, poema que talvez melhor represente esta fase do poeta. Uma reunião de poemas com a mesma linha de abordagem: o cosmos, em sua relação com a pessoa e seus escritos, de onde se delimita o limite das coisas e das proporções que nos fazem gente, do silêncio e da fala que habitam o interno SOS que nos alimenta.


Esta coletânea, as novas traduções e os novos poemas de Augusto – feita a exceção a “Não”, folheto composto de forma artesanal pelo autor em 1990, numa forma quase-narrativa – seriam reunidos em Despoesia, obra lançada em 1994, a melhor da década. Entre traduções para Emerson, Sinisgalli, Maiakóvski, Confúcio/Pound, Cummings, Khliébnikov, José Assunción Silva, Virgílio, Gertrude Stein, Musset, Safo, Mandelstam, Poe e Scelsi, Augusto também apresentou seus novos Profilogramas (para Roland Campos, João Cabral de Melo Neto, Décio Pignatari, Haroldo de Campos e para sua esposa Lygia).


Além de tudo, seus poemas “Poema-bomba”, “Nãomevendo”, “Poesia”, “Caça”, “Pós-soneto”, “Coisa”, “Tvgrama I”, “Tvgrama 2", Cançãonoturnadabaleia”, “Unreadymade”, “Viv”, “Espelho”, “Omesmosom”, “Desgrafite”, “Bio”, “Míngua”, “Minuto” e “Brinde”. Nestes poemas, Campos mistura o rigor dos concretos com a poluição visual dos anos 80 e 90, em poemas como “Nãomevendo”, em que as palavras se acumulam sucessivamente, “Tvgrama 1” e “Tvgrama 2”, que abordam a falta de leitura das novas gerações, para poetas essenciais, como o provençal Bernard de Ventadorn e o clássico Stéphane Mallarmé. Também aborda o desgaste de si mesmo e da forma (em “Pós-soneto”), a mistura de raças e línguas em “Coisa” (lembrando, novamente, John Cage), a vida como forma, em “Viv”, o conflito de espelhos entre os “eus” pessoais ou pessoanos, em “Espelho”, o desgaste do tempo em “Desgrafite”, o correr do tempo em “Minuto” e a lenta desaparição das coisas em “Brinde”. Caminhos que Campos retoma em poemas como “Morituro” e “Tour”, do seu terceiro livro, Não.


Deve-se destacar que Augusto lançou o CD Poesia é risco em 1997, acompanhado de um espetáculo multimídia, onde lia poemas de Arthur Rimbaud, e. e. cummings, Pedro Kilkerry, trechos do Finnegans wake, de James Joyce, e alguns seus, alguns com versão em vídeo, feitas por Walter Silveira e músicas de Cid Campos. E também fez os “clip-poemas”, ou seja, a animação de seus poemas (no CD-ROM que acompanha Não e na internet podem ser vistos alguns, inclusive inéditos, como “Utopia”), na linha de Arnaldo Antunes e seu multimediático projeto Nome (1993). O que pode ser visto em "tvgrama 3" e "tvgrama 4" (publicado em versão impressa na Revista Poiesis e em animação na revista Errática). Um poeta que está sempre em contato com a criação e com a recriação em modalidades alternadas de som e silêncio. Ultimamente, apesar de publicar poemas dispersos, Augusto vem se dedicando, como ao longo de sua trajetória, mais à tradução. O leitor deve entrar em contato sobretudo com Poesia da recusa, coletânea de traduções de Augusto, seguindo a linhagem de Verso reverso controverso, O anticrítico, Linguaviagem e Invenção.


Nela, o poeta apresenta novas traduções de poemas de Mallarmé, do alemão barroco Quirinus Kuhlmann, dos russos Aleksandr Blok, Anna Akhmátova, Boris Pasternak, Óssip Mandelstam, Sierguéi Iessiênin e Marina Tzvietáieva (constituindo quase uma edição à parte de Poesia russa moderna), do inglês William Butler Yeats e dos norte-americanos Gertrude Stein, Wallace Stevens e Hart Crane e do galês Dylan Thomas. Em outros livros recentes, Emily Dickinson – Não sou ninguém e August Stramm: poemas-estalactites, Augusto aprimora ainda mais seu trabalho. Ou seja, o seu trabalho como tradutor é particularmente excepcional. É possível pensar que a ligação de Augusto com o trabalho contemporâneo não se restringe aos seus experimentos tipológicos, gráficos, eletrônicos.


É sobretudo em seu trabalho de recuperação de uma tradição poética moderna por vezes esquecida que a poesia nova vem buscar alento. Afinal, nas traduções, como em sua poesia, dentro de uma estética moderna de silêncio, Augusto revitaliza sons apagados e batidos. De seu Viva vaia, passando por Despoesia até Não, todos seus livros de crítica e tradução, o que está em xeque é a sobrevivência da poesia como elemento crítico da sociedade. Nesse ponto, ironicamente - ao contrário do que parcela da crítica afirma -, o octogenário Augusto acaba sendo um dos poetas mais sociais que o Brasil já teve – mas nunca deixando de se alimentar da solidão do espaço sideral, para onde volta os olhos, num arquipélago de ideias-constelação, como em Mallarmé, de abandono e encontro.

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