domingo, 14 de março de 2010

Uma análise do poema “Manias”, de Cesário Verde

Por Nicole Cristofalo

No dia 23 de janeiro de 1874, foi publicado no Diário da Tarde, de Lisboa, o poema “Manias”, de Cesário Verde:

O mundo é velha cena ensanguentada.
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada —,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância, quixotesca.

Aos domingos a déia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

Buscaremos contextualizá-lo, e apontar possíveis interpretações por meio de textos críticos de Helder Macedo e Leyla Perrone-Moisés.


Neste poema, um soneto petrarquiano, Cesário descreve a tensão entre os valores da mulher da cidade e os valores da mulher do campo (ainda que esta última não seja mencionada explicitamente no poema). Sabemos dessa relação por conhecermos outros poemas do autor português em que exalta os costumes do campo e critica os da cidade, como afirma Helder Macedo: “Ao nível pessoal, a cidade significa a ausência, a impossibilidade ou a perversão do amor, e o campo a sua expressão idílica. Ao nível social, a cidade significa opressão, e o campo, a recusa da pressão e a possibilidade do exercício da liberdade”. Cesário critica os valores que a modernização e a industrialização trouxeram para as cidades portuguesas, seus costumes importados das cidades europeias, enquanto exalta os valores idílicos: “ao identificar-se com o povo que mantém ‘as tradições antigas, primitivas’, que lhe permitem apreender ‘a formidável alma popular’ ('Nós'), Cesário está a rejeitar o artifício do modelo industrial das nações do Norte adoptado em Portugal pela sua própria classe burguesa e citadina”. Tal postura se reflete em alguns de seus poemas sobre o amor da fase de 1874, mesmo período de “Manias”, em que a mulher da cidade é descrita como fria, mesquinha, e alguém que enxerga o homem apenas como um instrumento de seus caprichos, vindos dos valores da nova burguesia portuguesa.
Na primeira estrofe de “Manias”, Cesário comenta as faces trágicas do mundo, como se fosse “mania” dele a de ser uma “cena ensanguentada” e “picaresca”, uma “farsa”, ou uma “tragédia romanesca”. Para exemplificar, descreve a relação submissa entre um rapaz e uma mulher cujos valores mesquinhos e altivos refletem a burguesia que estava crescendo nas cidades daquele momento. No início da segunda estrofe, tomamos conhecimento do falecimento do rapaz (apesar de não sabermos as circunstâncias, o poema nos faz suspeitar de um suicídio, tamanha a submissão dele pela mulher “perversíssima” que é exposta ao longo do texto). Cesário descreve o jogo de sedução da mulher da cidade, repleto de caprichos (“cheia de jactância quixotesca”) e de arrogância (“Concedia-lhe o braço, com preguiça, / E o dengue, em atitude receosa”). Na segunda e terceira estrofes, vemos que se trata de uma mulher velha e de má aparência (“(...) a déia já rugosa”), além de “(...) esquálida e chagada”, e que se mostra inferior e temente apenas a Deus (“Levava na tremente mão nervosa, / O livro com que a amante ao ouvir missa!”), refletindo, além da atitude orgulhosa, como se fosse inferior apenas a Deus, também o costume beato português.
O tom irônico rodeia todo o poema, desde o título (“Manias”) até o último verso (“O livro com que a amante ao ouvir missa!”). Cesário chega a até mesmo transformar a imagem da mulher numa figura grotesca, uma senhora enrugada, velha e afetada com seus dengues de burguesa. Interessante citarmos a seguinte afirmação de Leyla Perrone-Moisés: “A propósito, é de observar-se que Cesário raramente é irônico; a ironia supõe uma superioridade do enunciador, e Cesário coloca-se quase sempre no mesmo nível que as pessoas por ele descritas, ao rés de seu tema”. Portanto, este poema se pronuncia como uma exceção à afirmação da crítica citada. Cesário procura se identificar com os valores do povo rural, e, ao criticar a burguesia da cidade, precisa se colocar numa posição superior, e apontar, segundo Macedo, “a possibilidade de outras atitudes em relação à mesma realidade”. Resgatar o amor campestre, ingênuo e sem caprichos, causando um desenlace positivo aos rapazes que se enamoram, a não se tornarem “– hoje uma ossada –”.


Outro ponto interessante para discutirmos sobre este poema de Cesário Verde é a relação subjetiva e objetiva do autor em relação à realidade que trata em seus textos, como o soneto “Manias”. O poema é descrito partindo das impressões que causou no narrador a história de um rapaz que se apaixona por uma mulher da cidade, arrogante e fria, se colocando submisso a ela, e provavelmente morrendo por conta desse cruel jogo de sedução. Segundo Macedo, “A observação do real por parte do narrador e o real por ele observado tornam-se assim, perante o poeta propriamente dito, em dois fenômenos diferenciados mas complementares e interdependentes. São ambos significantes da visão totalizante do poeta e, como tal, da mesma maneira que as personae têm aparência objectiva, assim também os elementos objectivos do real são susceptíveis de uma valorização subjectiva”. Porém, ainda que o poema parta das impressões subjetivas do autor, que compartilha com seus personagens da realidade que descreve no poema, ao mesmo tempo ele se distancia e seus personagens não necessariamente possuem os mesmos valores e opiniões que o autor. Para Macedo, “(...) Cesário incorpora no seu método realista um mecanismo de autocorrecção – que revela a dupla posição do poeta como, simultaneamente, parte da realidade dinâmica que observa e observador dinâmico da realidade de que é parte”. Cesário tem conhecimento da teoria de Taine, que procura, ainda segundo Macedo, “rejeitar a fundamental antinomia implícita no contraste entre a percepção subjectiva e a percepção objectiva”, embora opte por fazer com que o autor tome parte daquilo que descreve, mas sem necessariamente inseri-lo no poema, o que diferencia a posição de Cesário da posição romântica de diversos autores, atingindo a literatura realista. Suas impressões e valores interferem em sua obra de um modo distinto do que era empregado na poesia daquele período, embasada nas teorias europeias científicas e literárias. Conforme explica Leyla Perrone-Moisés, “Cesário não ‘explora’ a cidade, ele a ‘sente’, incluído na coletividade, sem os privilégios de um observador aristocrata e maldito”. Ou seja, Cesário se coloca na posição do coletivo, apontando situações as quais irá descrever e julgar segundo os valores também coletivos, primeiramente do povo campestre, porém abandonando este pressuposto, como veremos adiante.


Interessante notar que Cesário não se utiliza neste poema da técnica de montagem, muito usual em seus textos que descrevem imagens que ele vislumbra em seus passeios pela cidade e pelo campo. Talvez, justamente por este poema ter como origem a história de um rapaz, que fora conhecido do narrador, e o soneto descrever a relação daquele com uma mulher, e não o cenário de um passeio pela cidade ou pelo campo, não se tenha sido conveniente aplicar tal técnica, pois o que se narra não são paisagens ou ações, mas sim uma história. O assíndeto é usado nestes versos (“O mundo é velha cena ensanguentada, / Coberta de remendos, picaresca”), em frequência muito menor do que é geralmente utilizado em outros poemas, principal figura de estilo de Cesário Verde, segundo Helder Macedo, também por estar ligada à técnica de montagem.
De acordo com Leyla Perrone, “As metáfora e alegorias de Baudelaire tendem sempre a uma elevação ao plano metafísico, enquanto as imagens de Cesário nascem e permanecem no plano da realidade concreta”. De fato, encontramos nos poemas de Cesário metáforas construídas por imagens concretas, e não metafísicas, que se relacionam de modo a não causar uma tensão entre elas que fuja da realidade concreta. Em “Manias”, vemos o verso “Na sugestão canina mais submissa”, ou seja, imagens concretas e ligadas a situação real, e não metafísica.
A princípio, Cesário defendia os valores campestres em detrimento aos valores da cidade, corrompidos pela nova burguesia que estava se formando. Porém, tal atitude por muitas vezes lhe colocava numa situação crítica de consciência, já que ele próprio era dono de terras e possuía empregados, o que impossibilitava a aproximação de seus valores e sua realidade aos deles. Por fim, segundo Macedo, “esta revisão da imagem arcádica que servira de crítica à cidade forçou Cesário a abandonar a polaridade de atitudes expressas pela cidade e pelo campo como significantes e a deduzir dessas realidades antitéticas as injustiças comuns a ambas e, por extensão, às nações industriais do Norte e às nações agrárias do Sul”. Se “Manias” tivesse sido escrito tempos depois, provavelmente sua história poderia ser retratada tanto na cidade como no campo. Mas, ainda assim, Cesário enxergaria os vícios da mulher e a submissão do homem partindo de valores coletivos, e não subjetivos, enquanto envolve a realidade descrita com as personagens envolvidas nas cenas que, por tantas vezes, vão se desdobrando aos olhos do leitor como uma pintura realista.

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