A recusa de Tsvetáieva, Akhmátova e Mandelstam (I)
Por André Dick
No volume Poesia da recusa, Augusto de Campos relembra as palavras de Valéry sobre o trabalho de Mallarmé: “O trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por recusas. Pode-se dizer que ele é medido pelo número de recusas. [...] O rigor das recusas, a quantidade das soluções que são rejeitadas, as possibilidades que o escritor se proíbe, manifestam a natureza dos escrúpulos, o grau de consciência, a quantidade do orgulho e, também, os pudores e os diversos temores que se pode sentir com relação aos julgamentos futuros do público. É nesse ponto que a literatura atinge o domínio da ética”.
No caso de alguns poetas russos, trata-se de uma recusa não só a posições políticas, mas à vida meramente sistematizada. Esta recusa é representada por poetas como Mandelstam, Maiakóvski e Marina Tsvetáieva, por meio do suicídio, obviamente uma representação do desespero existencial de seus poetas e não uma sublimação literária, para se alcançar a eternidade ou tornar os escritos de quem se matou em algo de mais valor, ou entendê-lo como obrigação do sujeito infeliz, ou do poeta que deseja fugir ao sistema. A recusa não implica, também, escolher um caminho de pureza, de distanciamento do mundo, mas sim o de privilegiar o diálogo com a tradição, com o mundo – mas de forma não ideológica, comprometida.
Não por acaso, Óssip Mandelstam é um dos poetas russos mais contundentes. Nascido em Varsóvia, Polônia, cresceu em São Petersburgo e tem como principal obra seu primeiro livro, Kamen (“Pedra”), influenciado sobretudo pelo simbolismo, depois de um período controverso, em que era, ao mesmo tempo, protegido e perseguido, por amigos e inimigos. Após se desencantar com o movimento revolucionário, afastou-se, pouco a pouco, da política, e foi preso em 1934, acabando nos campos de concentração de Stalin, por fazer versos satíricos contra o ditador. Postava-se, desse modo, contra a vida burocrática do intelectual que trabalha para as ideias do governo, em busca de privilégios e aceitação popular.
Como lembram Nina Guerra e Filipe Guerra, na introdução de Guarda minha fala para sempre, “o destino de Mandelstam estava traçado: Stálin, que chegou a pensar domesticar o poeta, fazer dele mais um bobo da corte, agora já não aceitava louvores poéticos: ser liquidado aos poucos, desaparecer imperceptivelmente para não deixar rastro, era o destino deste, e de outros poetas”. Detido em 1938 e condenado a cinco anos de trabalhos forçados, acabou morrendo num “campo de passagem”, “enquanto aguardava a deportação para um dos campos de reeducação da Sibéria”. A acusação, como lembram Nina Guerra e Filipe Guerra, era de “propaganda antissoviética” e a sentença: “o réu Óssip Mandelstam, filho de comerciante, ex-socialista-revolucionária, por atividades contrarrevolucionárias, é condenado a cinco anos de campo de trabalhos forçados, na Kolimá. Não chegou a Kolimá”. Teria “morrido a 20 de dezembro, na barraca nº 11 o campo de trânsito 3/10 de Usvitlag, a seção noroeste de Gulag, entre os kontriki, ou seja, os presos acusados de ‘atividades contrarrevolucionárias’. Tinha 47 anos” (apresentação de Fogo errante).
Fizeram o possível para que ele não fosse contemporâneo de seu país – quando a liderança de seu país, naquele momento, não era, sob certo ponto de vista, contemporânea da ética.
Como lembram Nina e Filipe Guerra, Mandelstam, “como poeta e como pessoa, era contra qualquer derramamento de sangue. E não em teoria: em 1918, em Moscovo, o socialista-revolucionário Bliumkin gabava-se de que tinha nas mãos a vida de muitas pessoas. Mandelstam, indignado, arrebatou-lhe das mãos a lista dos condenados ao fuzilamento e rasgou-as ali mesmo”.
Mandelstam foi traduzido em Portugal, nas coletâneas Fogo errante (Relógio d’Água) e Guarda minha fala para sempre (Assírio & Alvim), este também com textos em prosa e uma apresentação mais alentada. Ambas têm boas traduções – assinadas por Nina e Filipe Guerra –, buscando, na maioria das vezes, pela sonoridade do poeta russo. Além disso, sua preocupação do verso como arquitetura era evidente (assim como em João Cabral). Segundo Krystyna Pomorska, em Formalismo e futurismo, a “tendência de Mandelstam para usar motivos de material arquitetônico (especialmente em seu primeiro volume, Kamén, 1913) e nomes de substâncias duras e sólidas (kámen, zóloto, almáz, pierlamutr – pedra, ouro, diamante, madrepérola)” está “de acordo com o apego dos acmeístas (que veremos mais adiante) à arquitetura tomada como modelo poético”. Vejamos, por exemplo, a bela tradução da primeira estrofe de “Ode à ardósia” (de Fogo errante):
Estrela com estrela – junção verdadeira,
pétreo caminho dum velho cantar,
anel e ferradura, água e pederneira,
língua de pederneira e de ar.
No xisto mole das nuvens o plúmeo
desenho leitoso a ponteiro urdido
não é uma aprendizagem do mundo,
é dum torpor de ovelhas o delírio.
Ou o seguinte poema:
Ainda não morreste, inda não estás sozinho;
A companheirinha-mendiga
No vale magnânimo e com bruma, o frio,
A tempestade – está contigo.
Na pobreza opulenta, miséria poderosa,
Vive tranquilo e consolado.
Benditas são as noites e os dias, e o labor
Do belo-verbo é sem pecado.
Desgraçado é quem de si mesmo é a sombra,
A quem assusta o ladrido,
O vento ceifa. É pobre quem pede esmola à sombra
Meio morto e ferido.
André Vallias, em uma de suas traduções de Mandelstam (publicadas na Errática), revela bem, como nesses poemas acima, a mistura dosada por Mandelstam entre imagens e sonoridade fazendo com que, como lembra Pomorska, ele se torne o poeta russo mais próximo do simbolismo francês, com um “certo afastamento parnasiano, uma tonalidade clássica e uma imagética baseada na mitologia clássica”:
Nem o que é supérfluo falar,
Nada que valha a pena mostrar,
Entristecida e livre de mácula,
A alma escura do animal:
Sem nada que deseje ensinar
Nem nada que soubesse falar,
Nada o golfinho gris ao fundo
Voraz-cinzento do mundo.
Mandesltam influenciou diretamente um poeta antológico do século XX, Paul Celan, que o traduziu. Mandelstam escreveu: “Num momento crítico, o marinheiro lança às águas do mar a garrafa selada com o seu nome e o seu destino. Muitos anos depois, vagueando nas dunas, acho-a na areia, leio o papel [...] O oceano acudiu com a sua força enorme e fez cumprir o destino da garrafa [...] A garrafa é como as poesias, que não são endereçadas a ninguém em especial. Mas ambas têm destinatário: a carta – quem achar por acaso a garrafa na areia, a poesia – um leitor qualquer da futura geração”. Celan escreveu, por sua vez: “O poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção – decerto nem sempre muito esperançada – de um dia ir dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho – têm um rumo”.
Mostrando postagens com marcador Marina Tsvetáeiva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marina Tsvetáeiva. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 29 de junho de 2011
A recusa de Tsvetáieva, Akhmátova e Mandelstam (II)
Por André Dick
A poeta Anna Akhmátova integrava, como Mandelstam, este por um curto período de tempo, o grupo batizado de “acmeísta”. Certa vez, Mandelstam gritou, exaltado, diante de pessoas descontentes com seu discurso, numa reunião do jornal Litetaturnaia Gazeta”: “Sou contemporâneo de Akhmátova!”. A palavra “contemporâneo” representava, para os poetas russos, estar ao lado de alguém: ser contemporâneo no plano das ideias, sobretudo.
Para Nina Guerra e Filipe Guerra, a “nova corrente”, da qual Mandelstam e Akhmátova fizeram parte, tornou-se uma superação lógica do simbolismo: “Voltar à terra: da eternidade para a história, da feminidade eterna para o princípio masculino, dos espíritos incorpóreos, sejam anjos ou diabos, para a força animal, do além para o cotidiano, da ideia para as manifestações concretas”. No entanto, o acmeísmo não é uma negação do simbolismo, mas utiliza suas ideias sob um ponto de vista relacionado à realidade desses poetas, como os poetas simbolistas tinham também a sua. Akhmátova é uma das poetas mais modernas que a Rússia já teve e, além de haver traduções de poemas seus em Poesia da recusa, ganhou, no Brasil, um volume da Coleção L&PM Pocket, com traduções de Lauro Machado Coelho, o mesmo que escreveu sua biografia Anna, a voz da Rússia – Vida e obra de Anna Akhmátova e é responsável pelo volume Poesia soviética, em que há traduções dela, ambos editados pela Argol.
Ela está entre as poetas que permaneceram na Rússia mesmo com a intervenção stalinista. O comissário de cultura de Stalin, Zhdânov, a condenou, por realizar uma poesia distante do povo – talvez porque configura, sobretudo, as ruínas da modernidade. No entanto, a poeta mesmo disse, em “Sobre mim em resumo”: “Nunca deixei de escrever versos. Neles, para mim – a minha ligação com o tempo, com a vida nova do meu povo”.
Quando os escrevia, vivia os ritmos que soavam na história heroica do meu país”, pois, como escreve Krystyna Pomorska, Akhmátova “reduz as expressões metafóricas aos seus significados literais básicos”, tendo como fontes de experiência “encontros e partidas de amantes”. Vejamos uma tradução (de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, de Poemas, publicado pela Relógio d’Água):
Tudo saqueado, traído, vendido
Da morte negra a asa passava veloz,
Tudo pela tristeza faminta roído,
Por que ficou iluminado para nós?
De dia o sopro a cerejeira em exalações
Do bosque inusitado em baixo da cidade,
De noite brilha com as novas constelações
Dos céus de Julho a profunda claridade, –
E tão próximo o milagroso vem
Ao sujo casario desmoronado...
Não é conhecido por ninguém, por ninguém,
Mas pelo século para nós despejado.
O mesmo se diz de Marina Tsvetáieva, filha de um professor da Universidade de Moscou e de uma musicista e poeta, que chegou a ter um romance com Mandelstam, admirava Akhmátova (sentimento que, no entanto, não era correspondido) e acabou tendo um fim trágico (suicidou-se), depois de o marido ter sido fuzilado e a filha colocada num campo de concentração, logo após a Rússia ser invadida pelos nazistas. O pathos de Marina é investigado por Décio Pignatari, no seu livro de traduções dedicados à poeta russa, e por Aurora Fornoni Bernardini em Indícios flutuantes, com versos, e Vivendo sob o fogo, com trechos de diários, memórias e correspondências da poeta russa.
Para Aurora Bernardini, em toda a obra de Tsvetáieva, “há diálogos e ‘transmutações’ com poetas e escritores de várias épocas e várias partes, e com certeza haverá mudanças de tom, mas é o amor desesperado por seu mundo russo da infância um dos traços mais característicos de sua poesia”. Marina viveu uma vida amorosa e polêmica: conforme Pignatari, em seu “primeiro ano praguense, teve ligações várias com editores, poetas e críticos, epistolares ou coloridas, a longa, média e curta distância...”. Tendo como tema o amor, havia uma grandiosidade em Tsvetáieva, sobretudo na escolha dos temas e das imagens. Como afirma Décio Pignatari: “É uma alma sem alma, que acredita-mas-não-crê em Deus e que só possui uma medida para o seu infinito – o fenômeno poético que obrigará a ser sinônimo de amor – e este é o seu embate romântico existencial”. O embate romântico sempre suscita o fim do sujeito. Vejamos, por exemplo, o poema “Encontro”, na tradução de Décio Pignatari:
Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.
Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lamúrias)
por corpos e almas – e sem medos!
A mim, digo que viva, à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,
e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor... Então, enterre-me no céu!
Ou o poema “Não terás minha alma viva”, na tradução de Aurora Bernardini:
Não terás minha alma viva,
Não se dará como uma pluma.
Vida, tu rimas muito com: fingida –
O ouvido do cantor não erra uma!
Não a inventou um nativo,
Deixe que vá a outras paragens!
Vida, tu rimas muito com: ungida –
Vida: brida! Destino: desatino!
Cruéis são os anéis nos tornozelos
No osso penetra a ferrugem!
Vida: facas sobre as quais dança
Quem ama.
– Cansei de esperar a faca!
Tvsetáieva também vendo sendo muito traduzida por Veronica Filíppovna, como vemos nessa tradução publicada na revista literária Desenredos, do ciclo Versos a Block:
Teu nome – um pássaro na mão,
Teu nome – uma pedra de gelo na língua.
Um único movimento nos lábios.
Teu nome – cinco letras.
Uma bola lançada no estio,
Um guizo de prata na boca.
Uma pedra, esquecida no balneário
Silencioso, soluça como teu nome.
Na leveza da noite, um estalido
Faz teu nome ressoar alto e
Escorrendo, harmonicamente,
Destina-se para nós.
Teu nome – ah, não posso! –
Teu nome – um beijo nos olhos,
No frio terno a idade inerte
Teu nome – um beijo na neve.
Um gole na fonte fria e azul
Em teu nome – o sono é profundo.
Com um estilo absolutamente moderno – em que os versos sofrem elipses das mais variadas, os sons das palavras se inter-relacionam, as imagens parecem se mover na busca pelo ritmo –, Tsvetáieva dialoga com muitos poetas de peso, sobretudo porque revela uma dor íntima, subjetiva, elevada à condição de quase um personagem. Sua defesa de Maiakóvski, que, inclusive, ignorava sua poesia – quando ele, depois de se assassinar, era criticado por diversos intelectuais – e de Akhmátova – que não apreciava seus poemas –, é um exemplo prático da rebeldia de Tsvetáieva.
No caso desses poetas – assim como de outros, a exemplo de Iessiênin e Maiakóvski –, o interessante é que a revolução é a recusa à revolução retórica e mesmo à revolução destacada pelo movimento concreto, em que o poeta produziria para as massas. Esses poetas acabam por evitar esse “mundo” no qual veem suas ideias serem contrariadas pelos fatos que encaminham ao encobrimento de qualquer verdade, agindo, por meio de seus versos, sobre a atemporalidade. Não que o que eles escreveram não tenha nada a ver com seu tempo: tem sempre relação – no entanto, é uma relação indireta, subjetiva, muitas vezes inconsciente. Eles quebraram a história porque sua contemporaneidade está justamente no fato de não se deixarem dominar por seu tempo: que escrevem para algo além, que seu papel é justamente reinterpretar os dados prévios à sua existência, entender que as trevas que os cercavam (instituindo sua retórica inadequada) não são infinitas como seus poemas. Parece estar justamente no fato de perceberem o que é sempre atual, mesmo que a história que aconteça ao seu redor não o seja – isto é, ainda está baseada em ideais que se adequam apenas aos interesses de um discurso vazio.
Eles visualizam o outro lado da modernidade, que não é o efêmero: eles realmente incorporam a história – ou a revolucionam –, porque sabem estar excluídos dela e só por meio disso tem condições de realmente defini-la. Trata-se de uma tentativa de revelar o único elemento inédito nos discursos desgastados: de que a história não pode ser tratada pelo viés messiânico quando este é guiado pelo discurso avesso de sua realização. E de que somente uma “voz” à frente de todos não significa a superioridade dessa figura, e sim a mediocridade dos que acabam por erguê-la. Tentar se desviar desse caminho depende da consciência de que não há quebra na história que não seja sugerida pelos próprios elementos que ela já traz, e que pretensamente renová-la – sobretudo com as mesmas figuras, que já cometeram sérios erros anteriormente e continuam apegadas ao poder, protegidas por um líder equivocado – é um despiste para esquecer de que muitas vezes ela não deu certo e partiu para um tempo de trevas. Esses poetas russos souberam, por um instante, acender uma fagulha, mínima que seja, tentando iluminar o que deu errado para que não aconteça novamente.
Por André Dick
A poeta Anna Akhmátova integrava, como Mandelstam, este por um curto período de tempo, o grupo batizado de “acmeísta”. Certa vez, Mandelstam gritou, exaltado, diante de pessoas descontentes com seu discurso, numa reunião do jornal Litetaturnaia Gazeta”: “Sou contemporâneo de Akhmátova!”. A palavra “contemporâneo” representava, para os poetas russos, estar ao lado de alguém: ser contemporâneo no plano das ideias, sobretudo.
Para Nina Guerra e Filipe Guerra, a “nova corrente”, da qual Mandelstam e Akhmátova fizeram parte, tornou-se uma superação lógica do simbolismo: “Voltar à terra: da eternidade para a história, da feminidade eterna para o princípio masculino, dos espíritos incorpóreos, sejam anjos ou diabos, para a força animal, do além para o cotidiano, da ideia para as manifestações concretas”. No entanto, o acmeísmo não é uma negação do simbolismo, mas utiliza suas ideias sob um ponto de vista relacionado à realidade desses poetas, como os poetas simbolistas tinham também a sua. Akhmátova é uma das poetas mais modernas que a Rússia já teve e, além de haver traduções de poemas seus em Poesia da recusa, ganhou, no Brasil, um volume da Coleção L&PM Pocket, com traduções de Lauro Machado Coelho, o mesmo que escreveu sua biografia Anna, a voz da Rússia – Vida e obra de Anna Akhmátova e é responsável pelo volume Poesia soviética, em que há traduções dela, ambos editados pela Argol.
Ela está entre as poetas que permaneceram na Rússia mesmo com a intervenção stalinista. O comissário de cultura de Stalin, Zhdânov, a condenou, por realizar uma poesia distante do povo – talvez porque configura, sobretudo, as ruínas da modernidade. No entanto, a poeta mesmo disse, em “Sobre mim em resumo”: “Nunca deixei de escrever versos. Neles, para mim – a minha ligação com o tempo, com a vida nova do meu povo”.
Quando os escrevia, vivia os ritmos que soavam na história heroica do meu país”, pois, como escreve Krystyna Pomorska, Akhmátova “reduz as expressões metafóricas aos seus significados literais básicos”, tendo como fontes de experiência “encontros e partidas de amantes”. Vejamos uma tradução (de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, de Poemas, publicado pela Relógio d’Água):
Tudo saqueado, traído, vendido
Da morte negra a asa passava veloz,
Tudo pela tristeza faminta roído,
Por que ficou iluminado para nós?
De dia o sopro a cerejeira em exalações
Do bosque inusitado em baixo da cidade,
De noite brilha com as novas constelações
Dos céus de Julho a profunda claridade, –
E tão próximo o milagroso vem
Ao sujo casario desmoronado...
Não é conhecido por ninguém, por ninguém,
Mas pelo século para nós despejado.
O mesmo se diz de Marina Tsvetáieva, filha de um professor da Universidade de Moscou e de uma musicista e poeta, que chegou a ter um romance com Mandelstam, admirava Akhmátova (sentimento que, no entanto, não era correspondido) e acabou tendo um fim trágico (suicidou-se), depois de o marido ter sido fuzilado e a filha colocada num campo de concentração, logo após a Rússia ser invadida pelos nazistas. O pathos de Marina é investigado por Décio Pignatari, no seu livro de traduções dedicados à poeta russa, e por Aurora Fornoni Bernardini em Indícios flutuantes, com versos, e Vivendo sob o fogo, com trechos de diários, memórias e correspondências da poeta russa.
Para Aurora Bernardini, em toda a obra de Tsvetáieva, “há diálogos e ‘transmutações’ com poetas e escritores de várias épocas e várias partes, e com certeza haverá mudanças de tom, mas é o amor desesperado por seu mundo russo da infância um dos traços mais característicos de sua poesia”. Marina viveu uma vida amorosa e polêmica: conforme Pignatari, em seu “primeiro ano praguense, teve ligações várias com editores, poetas e críticos, epistolares ou coloridas, a longa, média e curta distância...”. Tendo como tema o amor, havia uma grandiosidade em Tsvetáieva, sobretudo na escolha dos temas e das imagens. Como afirma Décio Pignatari: “É uma alma sem alma, que acredita-mas-não-crê em Deus e que só possui uma medida para o seu infinito – o fenômeno poético que obrigará a ser sinônimo de amor – e este é o seu embate romântico existencial”. O embate romântico sempre suscita o fim do sujeito. Vejamos, por exemplo, o poema “Encontro”, na tradução de Décio Pignatari:
Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.
Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lamúrias)
por corpos e almas – e sem medos!
A mim, digo que viva, à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,
e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor... Então, enterre-me no céu!
Ou o poema “Não terás minha alma viva”, na tradução de Aurora Bernardini:
Não terás minha alma viva,
Não se dará como uma pluma.
Vida, tu rimas muito com: fingida –
O ouvido do cantor não erra uma!
Não a inventou um nativo,
Deixe que vá a outras paragens!
Vida, tu rimas muito com: ungida –
Vida: brida! Destino: desatino!
Cruéis são os anéis nos tornozelos
No osso penetra a ferrugem!
Vida: facas sobre as quais dança
Quem ama.
– Cansei de esperar a faca!
Tvsetáieva também vendo sendo muito traduzida por Veronica Filíppovna, como vemos nessa tradução publicada na revista literária Desenredos, do ciclo Versos a Block:
Teu nome – um pássaro na mão,
Teu nome – uma pedra de gelo na língua.
Um único movimento nos lábios.
Teu nome – cinco letras.
Uma bola lançada no estio,
Um guizo de prata na boca.
Uma pedra, esquecida no balneário
Silencioso, soluça como teu nome.
Na leveza da noite, um estalido
Faz teu nome ressoar alto e
Escorrendo, harmonicamente,
Destina-se para nós.
Teu nome – ah, não posso! –
Teu nome – um beijo nos olhos,
No frio terno a idade inerte
Teu nome – um beijo na neve.
Um gole na fonte fria e azul
Em teu nome – o sono é profundo.
Com um estilo absolutamente moderno – em que os versos sofrem elipses das mais variadas, os sons das palavras se inter-relacionam, as imagens parecem se mover na busca pelo ritmo –, Tsvetáieva dialoga com muitos poetas de peso, sobretudo porque revela uma dor íntima, subjetiva, elevada à condição de quase um personagem. Sua defesa de Maiakóvski, que, inclusive, ignorava sua poesia – quando ele, depois de se assassinar, era criticado por diversos intelectuais – e de Akhmátova – que não apreciava seus poemas –, é um exemplo prático da rebeldia de Tsvetáieva.
No caso desses poetas – assim como de outros, a exemplo de Iessiênin e Maiakóvski –, o interessante é que a revolução é a recusa à revolução retórica e mesmo à revolução destacada pelo movimento concreto, em que o poeta produziria para as massas. Esses poetas acabam por evitar esse “mundo” no qual veem suas ideias serem contrariadas pelos fatos que encaminham ao encobrimento de qualquer verdade, agindo, por meio de seus versos, sobre a atemporalidade. Não que o que eles escreveram não tenha nada a ver com seu tempo: tem sempre relação – no entanto, é uma relação indireta, subjetiva, muitas vezes inconsciente. Eles quebraram a história porque sua contemporaneidade está justamente no fato de não se deixarem dominar por seu tempo: que escrevem para algo além, que seu papel é justamente reinterpretar os dados prévios à sua existência, entender que as trevas que os cercavam (instituindo sua retórica inadequada) não são infinitas como seus poemas. Parece estar justamente no fato de perceberem o que é sempre atual, mesmo que a história que aconteça ao seu redor não o seja – isto é, ainda está baseada em ideais que se adequam apenas aos interesses de um discurso vazio.
Eles visualizam o outro lado da modernidade, que não é o efêmero: eles realmente incorporam a história – ou a revolucionam –, porque sabem estar excluídos dela e só por meio disso tem condições de realmente defini-la. Trata-se de uma tentativa de revelar o único elemento inédito nos discursos desgastados: de que a história não pode ser tratada pelo viés messiânico quando este é guiado pelo discurso avesso de sua realização. E de que somente uma “voz” à frente de todos não significa a superioridade dessa figura, e sim a mediocridade dos que acabam por erguê-la. Tentar se desviar desse caminho depende da consciência de que não há quebra na história que não seja sugerida pelos próprios elementos que ela já traz, e que pretensamente renová-la – sobretudo com as mesmas figuras, que já cometeram sérios erros anteriormente e continuam apegadas ao poder, protegidas por um líder equivocado – é um despiste para esquecer de que muitas vezes ela não deu certo e partiu para um tempo de trevas. Esses poetas russos souberam, por um instante, acender uma fagulha, mínima que seja, tentando iluminar o que deu errado para que não aconteça novamente.
Marcadores:
Anna Akhmátova,
Marina Tsvetáeiva,
Ossip Mandelstam
Assinar:
Comentários (Atom)









